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Premiação aos Ilustres

Anualmente, a sede da Associação Comercial na Penha distribui o prêmio“Penhense Ilustre”, para aqueles que mais se destacaram na comunidade.

Em 2003, foram 50 premiados, entre eles Rubens Bunas, proprietário de uma tradicional loja de artigos esportivos e Marco Antônio Jorge, dono de uma imobiliária.

“Esse prêmio é bem-vindo porque mostra o reconhecimento do nosso esforço para melhorar o lugar em que vivemos”, comemora Marco Antônio Jorge.

O administrador da distrital Penha reclama que o bairro, que foi um dos primeiros a se formar na cidade de São Paulo, sempre teve que viver às próprias custas, por ter sido “abandonado pelos governantes”.

Ele diz esperar que surja alguém disposto a trabalhar mais ativamente pela região.

“Não temos nenhum vereador aqui. Precisamos de um projeto político para ganhar influência e força de reivindicação junto ao poder público.”

Perguntado se ele próprio não seria um candidato natural, desconversa:

“Eu? Não. Não nasci para a política.”

Cláudia de Souza Morelli chega da rua correndo, arfando, e explica que foi resolver negócios em bancos, porque atualmente está tocando duas lojas sozinha. – “Minha cunhada, que era minha parceira, precisou sair” – e sem tomar fôlego começa a contar a história da reforma na fachada da loja, que foi mudada em prol do patrimônio histórico.

“A Prefeitura deu um prazo para tirarmos o luminoso e deixarmos a frente da loja como era antigamente”, conta.

Finalmente uma pausa.

A atarefada empresária faz parte da terceira geração da família Morelli, presente no comércio da Penha desde 1937 com a Casa Morelli, hoje instalada no número 23 da mais movimentada avenida do bairro, a Penha de França.

A loja da família vende bolsas e cintos, pastas e outros artigos em couro.

Uma filial faz o mesmo no vizinho Tatuapé.

“A loja do Tatuapé é maior, mas a daqui é mais significativa, porque foi neste bairro que meu avô começou tudo”, diz Cláudia.

A história dos Morelli se entrelaça com o crescimento do bairro.

O italiano Giuseppe Morelli chegou ao Brasil em janeiro de 1937, aos 26 anos de idade. Em julho do mesmo ano já abria sua alfaiataria.

A rapidez de Cláudia e seu tino para os negócios, que se nota facilmente com poucos minutos de conversa, são explicados pela genealogia.

Precavido, Morelli trouxe a maior parte do dinheiro dentro do sapato.

O italiano não era pessoa de perder tempo, definitivamente. Uma semana depois de conhecer a penhense Maria, já estava namorando-a.

“Ele sempre sabia o que queria e fazia de tudo para conseguir”, atesta a hoje viúva Maria Morelli, de 84 anos.

O período de namoro durou apenas oito meses.“E não pára aí” – diverte-se Maria, conhecida no bairro como Dona Mimi – porque eu tive o primeiro filho, Francisco, apenas dez meses depois de casada.”

O casal morava na casa construída atrás da alfaiataria, onde nasceram todos os seis filhos: Francisco, José, Joaquim, Maria Ignez, Mário Bruno e Carlos.

Dona Mimi já soma 13 netos e seis bisnetos.

Depois de 1954, o alfaiate Morelli decidiu que fazer roupas sob encomenda já não era um negócio promissor e mudou ligeiramente de ramo, passando a vender roupas prontas, sapatos, cintos e chapéus.

“Meu pai entendeu que era a hora de mudar e foi em frente sem pestanejar”, diz Francisco Morelli, o filho mais velho.

O grande número de filhos levou o patriarca dos Morelli a fazer a partilha dos bens em vida.

“Ele não queria desavenças na família por causa de dinheiro, então, um dia reuniu todos nós e dividiu os bens”, conta José Morelli, o segundo filho.

Seu irmão gêmeo, Joaquim – morto há sete anos – foi quem decidiu continuar com os negócios.

Cláudia, filha de Joaquim, segue na administração depois da morte do pai.

José e seu irmão Francisco são moradores da Penha desde que nasceram e freqüentam a Igreja do Largo do Rosário.

Todos os anos, eles atuam na organização da festa da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que em 16 de junho de 2002 completou 200 anos.

São trazidos para a festa grupos de congada e outras representações folclóricas de influência negra.

“Contamos com a colaboração de várias irmandades de Nossa Senhora do Rosário”, relata José.

“Trabalhamos bastante, mas quando chega o dia da festa, a gente esquece tudo e cai na farra”, diz Francisco.

Os rios Tietê e Aricanduva, os córregos Tiquatira e Guaiaúna e outros afluentes da área da Penha, cuja primeira vocação foi ajudar no desenvolvimento, hoje causam as enchentes, um dos maiores problemas da região.

A história registra que muito antes do bairro ser fundado oficialmente, os rios já mostravam sua predestinação em se tornar vias de acesso.

Em 1561, o padre Manuel de Paiva e o Irmão Gregório Serrão, ambos da Companhia de Jesus, a mesma do padre José de Anchieta, lideraram uma expedição defensiva contra os então chamados “nativos pagãos”.

No grupo, além dos religiosos, seguiam piratininganos (os habitantes de São Paulo), mestiços e índios batizados.

Como os índios rebeldes promoviam sangrentas investidas aos grupos que chegavam pelo caminho por terra, a expedição decidiu seguir por rio.

Começando no Tietê, entravam nos afluentes Tiquatira e Aricanduva, que chegam ao sopé do outeiro da Penha.

Dessa forma foi criado um novo caminho para o bairro, que contribuiu para a crescente penetração territorial e povoamento.

O transporte fluvial foi usado durante muitos anos, tanto para evitar o risco de ataques quanto pela facilidade no embarque de mercadorias.

O rio possibilitava fácil comunicação também com os povoados vizinhos de Nossa Senhora da Conceição de Guarulhos e de São Miguel, Itaquera, Itaquaquecetuba, Guaió (Suzano) e até Mogi, de onde se podia descer ao litoral.

Em tupi-guarani, Aricanduva significa “lugar onde há muitas palmeiras de espécie airi”.

Até os anos de 1930 e 40, a várzea do rio na área da Penha fez jus ao nome, servindo como espaço de lazer, oferecendo área verde e águas limpas.

Na época, não havia construções na várzea, respeitando as cheias naturais que ocorriam no verão – e que hoje dão lugar às desastrosas enchentes.

A canalização do Aricanduva propiciou a ocupação do solo ao redor, mas a força das águas acabou aparecendo.

De acordo com informações da Subprefeitura da Penha, somente este ano foram atingidas pelas águas dos córregos 2.237 casas na região.

Segundo a entidade, as medidas que serão tomadas para resolver o problema, incluem “intensificação da limpeza de bueiros e córregos, estudo de obras e serviços para contenção de encostas, como também outras obras, como a canalização do Córrego Rincão, entre as Ruas Guaranésia e Monte Sião.”

Texto de LÚCIA HELENA DE CAMARGO
Publicado no Jornal do Comercio em 2004.

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